Do passado da pesca costeira em Portugal chega-nos a Muleta de pesca, provavelmente a embarcação regional portuguesa mais conhecida em todo o mundo, devido à sua beleza e excentricidade. As primeiras referências a esta estranha embarcação datam, pelo menos, do século XVI e desde então, até por volta de 1920, navegou pela paisagem fluvial do Tejo. As Muletas do Tejo, ou Muletas do Seixal (como ficaram mais conhecidas) eram assim designadas por serem grandes barcos de pesca, utilizados unicamente pelos pescadores dos esteiros da margem sul deste rio (Seixal, Barreiro e Moita), chegando a figurar nos brasões de algumas destas povoações. A arte de pesca da tartaranha, uma arte de pesca de arrasto pelo través (atravessada ao vento e corrente do rio) para a apanha de espécies como o linguado, a azevia e a solha, era a que se praticava a bordo desta possante embarcação, que chegava a atravessar a barra para lançar as redes entre o Cabo da Rocha e o Cabo Espichel. A Muleta era uma embarcação de casco largo e chato, com um mastro central inclinado para vante, onde se içava uma grande vela latina triangular (a varredora de vara). Tanto na proa como na popa, destacam-se dois batelós (paus compridos) destinados a amurar e caçar as outras velas (varredora à ré e moletim à proa), assim como a amarrar os cabos que seguravam a rede da tartaranha. Esta embarcação, com uma dimensão média de 12 metros de comprimento, possuía, ainda, uma proa muito particular que, pregueada de bicos, concedia-lhe um aspecto agressivo.