O clima renovador sentia-se por toda a Europa entre os séculos XV e XVI, edificando-se nos principais centros comerciais e tecnológicos. Na Itália renascentista, novos esquemas conceptuais e artísticos surgem, estabilizando-se os princípios da ciência moderna, através da mão de Da Vinci, Galileu, Kepler, e muitos outros. Surge o movimento de reforma religiosa, colocando em causa a hegemonia católica.
Em Portugal, há uma preocupação constante com áreas ligadas ao mar: a construção naval, a marinharia, a cartografia e a farmacopeia ultramarina, com repercussões noutras áreas do saber. Surgem grandes centros humanistas – Braga, Évora, universidades, a própria corte – alimentados por homens intimamente ligados aos Descobrimentos, como D. João de Castro, João de Barros, Garcia da Orta e Pedro Nunes e, mesmo, pela rainha D. Leonor.
Mas a “experiência” trazida pelos Navegadores encontrava resistentes dentro da própria corte e nos mais conceituados círculos intelectuais da sua época. Ao pôr em causa o prestígio de autores clássicos, como Plínio e Ptolomeu, desconstruindo mitos e limites geográficos, punha em causa uma cultura de autoridade moral e científica, defendida por grandes pensadores como Sá de Miranda e António Ferreira, entre outros.
Aproveitando esta fervilhante troca de conhecimentos e ideias, a imprensa tem um papel importante, desde o início, na divulgação de conhecimentos e novidades. Este é o caso de Valentim Fernandes, cidadão morávio estabelecido em Portugal. Próximo do rei, a ele se deve a primeira publicação do Livro das Maravilhas de Marco Polo, oportunamente publicado no regresso de Gama das Índias.
Um dos legados mais importantes dos Descobrimentos é, sem dúvida, a literatura de viagens. Este extenso e heterogéneo conjunto de obras, reflecte a necessidade de registar e sistematizar os conhecimentos náuticos e os novos quadros culturais, trazidos pelo contacto com outros povos (ainda que, obviamente, dentro de uma perspectiva etnocêntrica – ocidental e cristã).
As obras narrativas produzidas durante este período são, em muitos casos, de grande riqueza estilística e etnográfica. As crónicas que relatam os «trabalhos náuticos» dos portugueses e as relações de viagens, relatos de naufrágios, diários de viagens e de navegação, e livros de armadas, constituem um interessante repositório de dados, inédito na sua dimensão e riqueza. As próprias filtragens de origem autoral, ou mesmo política, apenas contribuem para um retrato mais rico da época.
As obras técnicas revelam, por seu turno, uma utilização crítica do saber tradicional, adaptando-o ou rejeitando-o de acordo com as experiências vividas e, por outro, a sistematização e normalização dos novos conhecimentos no campo prático da astronomia náutica, da geografia e da construção naval. Os livros de marinharia, os próprios roteiros e guias náuticos, os livros de armação e uma diversidade de trabalhos ligados à cartografia portuguesa, eram obras de vanguarda. Como já se afirmou, a riqueza não residia somente no conteúdo, mas também na preocupação de sistematizar e confrontar um quadro teórico com o saber empírico.