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Planisfério "Cantino": uma história de espiões.

No contexto político do princípio do século XVI, com a Europa suspensa nos descobrimentos ibéricos, o segredo era um imperativo. Qualquer informação geográfica fornecida pelos navegadores portugueses, era tratada com grande confidencialidade por cartógrafos. A quebra de sigilo era considerada como traição ao reino e assim punida, no reinado de D.João II, com a pena de morte.

Mesmo assim, o diplomata-espião, Alberto Cantino, sediado em Lisboa, recolhe informações acerca das descobertas feitas pelas coroas ibéricas, para o Duque de Ferrara, representante de uma poderosa linhagem de comerciantes italianos. Quando este último exprime a vontade de ter um mapa ilustrativo das viagens, Cantino procura responder à exigência ducal, recorrendo a um cartógrafo ou copista, ainda hoje anónimo.

O mapa exigiu dez meses de trabalho, entre Dezembro de 1501 e Outubro do ano seguinte, documentados por correspondência entre o espião e o Duque. É provável que Cantino tenha tido o cuidado de entrevistar pilotos, obtendo assim mais informação, o que explica os escritos adicionais. 

Em Setembro de 1502, Cantino, já em Roma, informa o Duque do sucesso da empreitada. O mapa já se encontra em Génova e havia custado em Portugal doze ducados de ouro, um preço elevado que denuncia a dificuldade e o secretismo da encomenda.

Composto por três grandes folhas manuscritas coladas, o planisfério foi construído no sistema de rosa-dos-ventos, sobre o qual estão representados o Equador, os trópicos e a linha de Tordesilhas. As bandeiras representam as nações soberanas, incluindo  o Império Otomano em Constantinopla. Marcos com o brasão português denotam os portos tocados pelas expedições de Pedro Álvares Cabral e Vasco da Gama.

Mesmo sem a escala graduada de latitudes, a carta ilustra, com grande exactidão, as linhas de costa dos continentes, especialmente a África que, pela primeira vez, surge em todo o seu perímetro, com cordilheiras verdejantes e nativos exóticos. Repare-se na minúcia dada à fortaleza portuguesa que demonstra a importância da força militar.

Na Ásia, onde as naus portuguesas ainda se aventuravam timidamente, descreve-se com menos precisão a Índia, a China (pela primeira vez, representada num mapa ocidental, como “Terra dos Chins”) e a Indochina. Presume-se que, em relação a estes territórios, a sua concepção obedeça ainda a antigos mapas portulanos arábicos e a fontes secundárias. Uma das inovações mais importantes respeita à grande redução da extensão longitudinal do continente asiático, o que demonstra a profundidade de conhecimentos dos cosmógrafos portugueses.

Uma inscrição em latim no reverso do mapa afirma “Carta de navigar per le Isole nouam trovate in le parte de India: dono Alberto Cantino al S. Duca Hercole”: esta carta náutica, de ilhas recentemente descobertas na região das Índias, foi apresentada ao Duque de Ferrara, Ercole d’Este, por Alberto Cantino.

O mapa permaneceu na biblioteca do duque até 1592, altura em que a colecção é transferida pelo papa Clemente VIII para um palácio de Modena, onde se mantém  até meados do século XIX. É alvo de pilhagem, sendo recuperado por Giuseppe Boni, director da Biblioteca Estense de Modena, quando (já mutilado) serve de cortina num talho da cidade.

Pelo seu grande significado, o planisfério de Cantino é especialmente representativo de uma época fervilhante em descobertas e conquistas não só geográficas, como científicas. De uma enorme abrangência, este mapa inclui na sua representação do mundo, os territórios recém-achados do Brasil e Terra Nova. Constitui, por isso, um dos raros exemplares sobreviventes de convulsões políticas e económicas, sendo um testemunho importante do passado.

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